Terra de Ninguém | Ocupação foto.poética

November 03, 2015  •  Leave a Comment

Terra de Ninguém

 

Sobre a mesa de fórmica branca um letreiro barato, em cor-de-rosa fluorescente, – “Vende-se”.

750x390cm, paredes brancas – ligeiramente marcadas pelo tempo. Do lado direito, de quem entra, uma janela dupla rasga o espaço, deixando entrar a última luminosidade do dia.

São 16h24m e cá dentro a luz é ténue, neste dia invernoso. No Verão haveria de ser esplêndido este espaço, banhado pela luz que emana do jardim.

No chão, solarmente impresso na madeira, o negativo daquela que se adivinha ter sido a secretária do responsável que antes habitou este espaço. Pouco mais denuncia a ida função deste lugar - oito tomadas eléctricas e duas outras de telefone, uma das quais exibe ainda um fio esquecido, orgulhosamente ornamentada pela sua tomada RITA.

Dois aquecedores de parede, obviamente desligados pois a temperatura ambiente assim o justifica, e uma pequena caixa de cartão acima sinalizada com um grande “Não mexer” significando, naturalmente, uma recente desratização das instalações.

Chamam-lhe agora “Sala Jardim” e é o mais recente espaço expositivo do Museu da Água, em Coimbra.

 

Corporizar um projecto artístico numa sala totalmente desprovida de infra-estruturas e equipamentos pode ser tão desafiante como problemático. Considerar tal espaço como território a habitar, ainda que temporariamente, tornou-se o objectivo de 6 fotógrafos  - Ana Botelho, Francisco Varela, Ludmila Queirós, Miran Aires, Sara Moutinho e Susana Paiva.  Ao longo do período compreendido entre 3 e 11 de Novembro serão eles a habitar, construir, desconstruir e reinventar esta “Terra de Ninguém”, através de uma auto-intitulada “ocupação foto.poética” que visa equacionar e reflectir sobre os conceitos de “Território”, “Fronteira” , “Fragilidade” e “Fractura”.

Afinal qual é a melhor definição para a actual condição do artista senão a refugiado poético, nómada profissional, habitante de tantos territórios, com fronteiras móveis, simultaneamente fortes e frágeis e em eminente fractura?

 

Coimbra (neste cantinho da Sala Jardim), 3 de Novembro 2015

 


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